terça-feira, 2 de junho de 2015

Dark side of the mundo

É quase meio da noite
Neste hemisfério do mundo
O dia dá seus últimos suspiros
Só quem está animado
É o cão da casa ao lado
Cachorro do vizinho
Que ainda está latindo
Talvez ladrando o guarda noturno
Acho que espantando um gatuno
Ou reclamando de um felino
Que está sempre em cima do muro

O ar da noite
Fica pesado e escuro
Tudo fica obscuro
Nada parece ficar claro
Fala a verdade
Tudo parece dark
Tudo parece mentira
Tudo me intriga
Muita gente se entrega
Mas muita gente protela

A noite não tem paciência
Turno noturno só tem emergência
Até parece que sirene
Só abre a boca na calada da noite
Que voz estridente!
Parece riscando um vinil
Dos anos mil

As persianas são escudos
Apenas fachos do escuro
Adentram em meu mundo
Resumido num quarto escuro
Só eu inside
O resto fica lá fora
E pra depois

É quase meia-noite
Meus olhos registram
Os últimos momentos que findam
Mais um dia moribundo
Que suportamos mais um dia neste mundo

Então eu me desperto
Meio-dia não é meia-noite
Há controvérsias
Mas isso já são outras ideias
                                       Junho 2015



É quase meio da noite
Neste hemisfério do mundo

segunda-feira, 11 de maio de 2015

3,50

Ele juntou suas moedas
Não era bastante
Não dava nem um montante
Contou e recontou
Dava mas quase faltava
Era suficiente, mas não sobrava
Pra suprir aquela urgência
Para o estômago era emergência
Para o bolso era uma deficiência
Ele confiava e contava
Com aquelas moedas
Um olho conferia o dinheiro
O outro cobiçava o alimento
O coração se entregava àquele momento
E o estômago na carência do sustento

Que pane geral
Que pânico matinal...
Ou já era noite
Caindo feito foice
E pesando sobre os ombros?
Quando a fome bate lá dentro
Do lado de fora
O estômago só quer um acalento

Se o dinheiro não der
O sono é um alimento
Dormindo a fome dá um tempo
Acordado, o tempo é um tormento

O dinheiro deu
Mas na vida nada é dado
E ele comprou aquele salgado
Então ele sentiu-se digno
Ele não era nenhum bandido
Nem um maltrapilho
Talvez um simples mendigo
Em busco de um motivo
Pra manter-se vivo

Aquele foi um jantar de boa noite
Quiçá amanhã seja um dia bom
Talvez a vida seja bela
Mesmo numa situação daquelas
Mesmo sem poder contar
Com algumas moedas
                                                     Maio 2015

O dinheiro deu
Mas na vida nada é dado

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Farelo de pão

Depois do café da manhã
Ficam apenas os farelos de pão
Pelo chão
Quem nos observa
É o nosso cão
Já perto do chão
Esperando o que sobrou do pão

Nós pensamos
Que nos preocupamos
Com o que importa
E quando não jogamos fora
Lhes damos nossas sobras

Quem nos observa
E que fica de olho
É apenas um cachorro
De raça ou sem dono
Sarnento ou pulguento
Treinado ou mal tratado
Não importa
É apenas um animal
Em seu habitat natural
Lá bem perto do chão
Esperando o que sobrou do pão

Mas tem Um
Que está em outro lugar
Que nos observa pra cuidar
Se o farelo que oferecemos
É o melhor que temos

Às vezes somos mesquinhos
O farelo nós dividimos
Mas guardamos para nós
O que achamos que é o melhor

Quem vive oferecendo farelos
A vida devolve migalhas

Está escrito
O que digo não é castigo
É o que pode acontecer
Com você e comigo
Só isso
                                                 Maio 2014




Quem nos observa
E que fica de olho
É apenas um cachorro



segunda-feira, 4 de maio de 2015

Se meu Fusca voltasse

Olhando de frente
Ele parece gente
Ele é simples
E parece gente igual à gente
Olhos grandes e redondos
Para-choques risonhos
Sujeitinho amistoso
Quem nunca teve um?
Se não teve já andou em algum

Ele se foi
Mas continuou com o povo
O irmão mais novo
Tem capô empinado
Tem cara de metido
Virou o New Beetle
Até difícil de pronunciar isso!

Aquele antigo
O irmão mais velhinho
Tinha a cara de uma nação
Representou uma geração
Era a cara do básico
Ele era o necessário
Jeitão operário e assalariado
Mas nem por isso
Nos sentíamos menos valorizados
Com o Besouro
O resto era ouro pra tolo

Ê época boa sem preconceito
Ele até virou o Fuscão preto

O meu era branco
Igual minha conta no banco
Todo pelado e básico

E se ele falasse?
Talvez ele dissesse muitas verdades
Talvez não fosse mais unanimidade
Talvez perdesse sua humildade
Talvez fizessem dele uma obscuridade
A época exigia serenidade

Carro bom foi aquele
Conheceu o mundo
Rodou muito
Viu de tudo
E falou pouco
                                      Maio 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

White guitar

Meu filho Matheus Naves comprou uma guitarra, mas o instrumento deu problemas e ele a devolveu ao fabricante. Quanta tristeza... até ele comprar outra! Mas tenho certeza que ele sempre irá se lembrar de sua primeira guitarra: a guitarra branca.
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Pobre de minha guitarra branca
Foi amor a primeira vista
Com pagamentos a prazo
Poder ser abuso de minha parte
Mas já a estava chamando
De Branca de Naves
Tantas eram
Nossas cumplicidades e afinidades

Aquela coisa fina
Desafinou e se estragou
Produziu desacordes
Sem acordos com as notas
O som não era de uma Gibson
Tampouco uma Fender
Mas cá com os botões meus
Eu iria batizá-la e honrá-la
Como uma legítima Von Matheus

Mas a branquinha me deixou
Que saudades de suas tarraxas
Nossas cordas seriam felizes
Metais e vocais
Cordas e notas
Em puros devaneios
Sorry!
Sem escusas a tímpanos alheios

Mas ela se foi
E eu procuro por outra
Uma outra de qualquer cor
Seja como for
A música não tem cheiro nem cor
O sentido é ouvir e sentir
As notas a bailar pelo ar e por aí
                                             Abril 2015



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Roçar

Lembrando da Iolanda Cruz que, quando nos visitou em Fevereiro de 2013, juntamente com a Ivone, plantou alguns legumes nos fundos de casa. Ficaram somente saudades, pois agora ela está na memória de Deus.
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Fui capinar o quintal
Fui roçar o matagal
Confesso que o mato tava assim
Daquele jeito
Cavuquei a terra
E muitas minhocas
Dançavam igual funk dos cariocas

Meti a enxada
E acertei uma batata
Aí foi batata!
Depois de umas roçadas
Colhi mais 3 leguminosas
A salada vai ficar saborosa
A Iolanda ficaria orgulhosa

Lavei a alma
Com o corpo sujo de barro
Me senti um homem da terra
Com o suor na testa
O suor descia melado
Todo embarreado e suado

O céu era amarelo e ficou cinza
E a chuvarada veio de cima
Fechei os olhos e olhei pro alto
A água lavou meu marrom
E voltei a ser apenas homem
Homem igual gente
Homem branco sem cor de terra

Sou do asfalto
E pouco conheço a terra
Mas um dia vou ficar só
E vou voltar ao pó
                                                       Abril 2015

segunda-feira, 23 de março de 2015

Tchau pai tchau filho

Tchau pai
Vou sair do berço
E dar umas caneladas pela casa

Tchau pai
Vou jogar bola no campinho
E dar umas caneladas na bola

Tchau pai
Vou para a escola
E dar umas canetadas na prova

Tchau pai
Vou conhecer minhas esquinas
E dar umas cabeçadas pela vida

Tchau pai
Chegou a hora da minha ida
Vou sair de casa e cuidar de minha família

Tchau filho
Obrigado por ter me ensinado
Enquanto eu pensava que te ensinava
Março 2015