segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A morte do volume

Enquanto poucos arranham céus
Muitos deitam no chão

Cidade de tantos muros
E poucos rios
Nervos, corações e armações:
Todos petrificados

A grama cheia de energia
E calçadas frias
São aconchegos de vidas

Bocas de lobo
Gritam de desgosto
E quase engolem todos

Filas infinitas
Tentam disciplinar
A impaciência sem limites

E os céus ficam cinzas
Ora pela poluição
Ora pela situação
Ora pela desilusão
Ore para a solução
Oras
Você não assiste televisão?
Você não lê o estadão?
Você não vê os olhos do cidadão?
Pare de respirar
Pois há algo de impuro no ar

A cidade
Fica seca por uma gota
E quando elas caem
A cidade se enche toda
Cadê a cantoria da Cantareira?
Não adianta aumentar o som
Pois o volume está morto

E as torneiras se calam
E ficam de luto
No fundo, no fundo
Os canos respiram fundo
E esperam por uma luz no fim do túnel
Mas que seja uma luz
Sem conta de consumo
Essa luz vai ser
A solução de tudo
Agosto 2015

E as torneiras se calam
E ficam de luto

sábado, 11 de julho de 2015

1Hum a se7te

Número se7te
Não tem nada de mágico
Às vezes é meio palhaço
Mas também pode ser trágico
E tem sido nostálgico

Às vezes se7te é uma bola
Mas é bola de caçapa
Que sinuca!
Bola na rede que é bom
Nunca

Quem não se lembra dos se7te anões?
Um deles era bem zangado
Um outro era meio dunga
Mas taça que é bom
Nunca

Às vezes bola vira bolada
Bolada pra mais de se7te dígitos
E uns se sentem mito$
E outros poucos neymar nem menos

E a gente sua e continua
Tomando bolada na fuça
E se7te estrelinhas arriba
Rodopiam e nos deixa meio zuñiga
 
Não dá nem pra conseguir uma contusão
Ou arrumar uma expulsão
Todo dia temos que bater o cartão
E encarar o patrão
Mesmo que ele seja feio igual ao Felipãp
Ou mais bravo do que um alemão

Pra eles foi se7te a um
Com a gente
É 1Hum a sete
Nós somos só 1Hum* pra vencer a demanda:
Os se7te dias da semana
Que seja no Brasil, China ou Alemanha
* Somos um no mundo com “H” maiúsculo

Julho é mês se7te
E depois de um ano passado
Todos nos lembramos do mineiraço
Eu digo e não tem jeito:
Chucrute com pão de queijo
É bom pra memória o ano inteiro
                                                 Julho 2015




quarta-feira, 8 de julho de 2015

O astronauta que tinha medo de escuro

O kamikaze
Que tinha medo de altura
E nunca tentava de novo nem voltava à luta
O desempregado
Que tinha medo de jornal
Lia os classificados e passava mal
O torcedor
Que tinha medo de alemão
E não foi ver a seleção
O político
Que não suportava moedas miúdas
E preferia as notas graúdas
O arroz e feijão
Que tinham alergia a pobre
E preferiram a panela do nobre
O sol
Que tinha medo de escuro
Dava 6:30 e já terminava seu turno
O botão
Que tinha medo da vida solitária
E não ficava sozinho em casa
O tijolo
Que se sentia um tolo
E cansou de ficar em cima do muro o tempo todo
O muro
Que tá meio caído e não quer mais separar o mundo
E não sobrou tijolo sobre tijolo
(Tem gente que o procura, pois estão preocupados
Querem separar suas cidades e estados)
O café
Que era antissocial
E não se misturava com leite nem com sal
O relógio
Que tinha medo de andar pra frente
E olhava pra traz pra ver se tinha gente
O bueiro
Que fez redução de estômago
Pois passava mal com o lixo que lhe jogamos
A panela de feijão
Que pediu demissão
Pois não aguentava mais pressão
A pizza
Que tinha medo do forno
Porque tudo acabava nela e no bolso dos outros
O sapato
Que viviam pegando em seu pé
Ficou com medo e queria ser chinelo
Pra acabar com seu chulé
O palhaço
Que cansou de fazer graça
Largou o riso e foi usar terno e gravata
O bacio
Que não suportava mais viver na sujeira
Queria ser pano de prato, mas não conseguia
O telefone
Que cansou de saber da vida alheia
E perdeu a linha e as boas maneiras
A lama
Que vivia um drama
Mudou de vida pra melhorar sua fama
O azar
Que se achava sem sorte
E foi viver ao acaso
Porque era mais sensato
O radio relógio
Que entrou em crise de existência
Perdia a hora todo dia nem dava mais notícia

Minha caneta
Que depois de tudo isso
Tá desanimada com a tinta
Mas vai continuar com a escrita
Apesar de ter os pés na terra

O astronauta
Que tinha medo de escuro
E não queríamos mais voltar pro mundo
Julho 2015

... e não queríamos mais voltar pro mundo

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Casa da máquina

Quando a engrenagem para
Os ponteiros fazem atrasar
E seu trabalho não adianta
O mecanismo se corrói
A ferrugem lhe destrói
E nada mais funciona
A oficina fecha as portas
E para a produção
Vira casa sem cadeado
Piso escorregadio pra quiabo!

Quando a engrenagem emperra
Ninguém mais bota fé
E o dono da casa só se ferra

Polias e roldanas
Entram em parafuso
E fazem de tudo
Por um copo de óleo
Ou uma colher de graxa
Pelo menos umas pilhas
Pra animar as energias

Quando a engrenagem não funciona
O mecânico sempre tá de folga
E o engenheiro não se importa
Isso só complica a vida
Ou é pressão minha?
Eu é que tenho que me virar nos 30
Antes de acabar a tinta
Antes q seja escrita minha última linha

Quando a engrenagem para
Tá na cara
Há algo de ruim na casa da máquina

Tenho uma dica
Talvez seja até dolorida
Sacode a massa cinza
E dê a volta por cima
Julho 2015

terça-feira, 2 de junho de 2015

Dark side of the mundo

É quase meio da noite
Neste hemisfério do mundo
O dia dá seus últimos suspiros
Só quem está animado
É o cão da casa ao lado
Cachorro do vizinho
Que ainda está latindo
Talvez ladrando o guarda noturno
Acho que espantando um gatuno
Ou reclamando de um felino
Que está sempre em cima do muro

O ar da noite
Fica pesado e escuro
Tudo fica obscuro
Nada parece ficar claro
Fala a verdade
Tudo parece dark
Tudo parece mentira
Tudo me intriga
Muita gente se entrega
Mas muita gente protela

A noite não tem paciência
Turno noturno só tem emergência
Até parece que sirene
Só abre a boca na calada da noite
Que voz estridente!
Parece riscando um vinil
Dos anos mil

As persianas são escudos
Apenas fachos do escuro
Adentram em meu mundo
Resumido num quarto escuro
Só eu inside
O resto fica lá fora
E pra depois

É quase meia-noite
Meus olhos registram
Os últimos momentos que findam
Mais um dia moribundo
Que suportamos mais um dia neste mundo

Então eu me desperto
Meio-dia não é meia-noite
Há controvérsias
Mas isso já são outras ideias
                                       Junho 2015



É quase meio da noite
Neste hemisfério do mundo

segunda-feira, 11 de maio de 2015

3,50

Ele juntou suas moedas
Não era bastante
Não dava nem um montante
Contou e recontou
Dava mas quase faltava
Era suficiente, mas não sobrava
Pra suprir aquela urgência
Para o estômago era emergência
Para o bolso era uma deficiência
Ele confiava e contava
Com aquelas moedas
Um olho conferia o dinheiro
O outro cobiçava o alimento
O coração se entregava àquele momento
E o estômago na carência do sustento

Que pane geral
Que pânico matinal...
Ou já era noite
Caindo feito foice
E pesando sobre os ombros?
Quando a fome bate lá dentro
Do lado de fora
O estômago só quer um acalento

Se o dinheiro não der
O sono é um alimento
Dormindo a fome dá um tempo
Acordado, o tempo é um tormento

O dinheiro deu
Mas na vida nada é dado
E ele comprou aquele salgado
Então ele sentiu-se digno
Ele não era nenhum bandido
Nem um maltrapilho
Talvez um simples mendigo
Em busco de um motivo
Pra manter-se vivo

Aquele foi um jantar de boa noite
Quiçá amanhã seja um dia bom
Talvez a vida seja bela
Mesmo numa situação daquelas
Mesmo sem poder contar
Com algumas moedas
                                                     Maio 2015

O dinheiro deu
Mas na vida nada é dado

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Farelo de pão

Depois do café da manhã
Ficam apenas os farelos de pão
Pelo chão
Quem nos observa
É o nosso cão
Já perto do chão
Esperando o que sobrou do pão

Nós pensamos
Que nos preocupamos
Com o que importa
E quando não jogamos fora
Lhes damos nossas sobras

Quem nos observa
E que fica de olho
É apenas um cachorro
De raça ou sem dono
Sarnento ou pulguento
Treinado ou mal tratado
Não importa
É apenas um animal
Em seu habitat natural
Lá bem perto do chão
Esperando o que sobrou do pão

Mas tem Um
Que está em outro lugar
Que nos observa pra cuidar
Se o farelo que oferecemos
É o melhor que temos

Às vezes somos mesquinhos
O farelo nós dividimos
Mas guardamos para nós
O que achamos que é o melhor

Quem vive oferecendo farelos
A vida devolve migalhas

Está escrito
O que digo não é castigo
É o que pode acontecer
Com você e comigo
Só isso
                                                 Maio 2014




Quem nos observa
E que fica de olho
É apenas um cachorro