sexta-feira, 3 de junho de 2016

Conta gotas

Toda goteira
Parede tortura chinesa
Aquele pinga, pinga
Parece bebum no buteco da esquina
Pedindo cachaça na faixa
Cada gota que cai
Parece bomba lançada
No chão lá de casa
O som da goteira
Incomoda os ouvidos
E dói em meu bolso sofrido
Mas cá com meus encanamentos furados
Até a goteira tem trabalhado
Enquanto eu continuo desempregado

À noite eu sou conta gotas
Preferia contar carneiros
Em busca do sono perfeito
Gotas noturnas com insônia
Ivadem a madrugada
O escuro não é páreo
Para essas saraivas que vêm do alto
Isso enche o saco
Transbordam baldes
E enchem bacias

Preciso de um encanador
Ou um empregador
Pra tapar vazamentos da vida
Me debruço sobre os classificados
Em muitos dias dedicados
Mas os anos se passaram
E minhas goteiras
Continuam fiéis companheiras
Tô dando nó em pingo d’água
Nessa luta árdua

Nessa fase da vida
Meu mundo quase perfeito seria
Canos sem vazamentos
Chuveiro quente
Torneiras sem goteiras
E registro na carteira
Junho 2016



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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ah, braços!

Ah, braços
Que te quero abertos
Para se fecharem em abraços

Ah, braços
Que depois de fechados
Parecem laços
Em forma de abraços

Ah, braços
Que chegam secos
E saem molhados
Às vezes encharcados
E lá
Entre os braços
Vem um peito todo cheio
Para o aconchego

Ah, braços
Que chegam inteiros
E saem aos pedaços
Por terem se dado

Ah, braços
Que rodeiam e dão a volta
Vão longe até as costas
Costas outrora dispostas
Agora cansadas

Ah, braços
Que vêm com pacote fechado
São os ombros que chegam
Pra dar suporte aos abraços

Ah, mas nem precisa ter braços
Para alguém se doar
E oferecer seus abraços
Ah, braços
Junho 2016

Ah, braços
Vão longe até as costas

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Super-humano

Quando eu era menor
Eu tinha um super-herói
Desenhado em meu peito
Peito sem pelo e sem documento

Meu irmão desenhava
Então eu me transformava
Às vezes eu era invisível
Todos os dias eu era invencível
Balas de mamonas?
Eu era imune a todas
Meu batmóvel era uma bicicleta
Que me levava pelo bairro ou pra qualquer lugar da Terra
Eu pulava do segundo degrau
E voava pra combater o mau
O vento ventania ventava
E balançava a minha capa
Eu usava uma mascara
E minha identidade não era revelada
Meus inimigos diários
Tinham uns 10 centímetros
E eram de plástico
Nas batalhas eu nunca matava e sempre morria
Várias vezes no mesmo dia

Lutei em Gotham e Metrópolis
São Paulo, New York e Patópolis
Onde o dever me chamava
Lá eu estava
Eu enfrentava meus inimigos
E sempre ficava ferido
Às vezes eu lutava solitário
Muitas vezes eu era derrotado
Todo dia eu ia pra batalha
Armado com um sorriso na cara
Meu campo de batalha
Era o campinho de terra perto de casa

Hoje a batalha continua
Com a realidade nua e crua
Meu herói não é mais desenhado
Fica do lado de dentro guardado
Hoje eu não sou mais o herói de meus filhos
Como em tempos idos
Descobriram que não tenho super poderes
No lugar, super falhas e temores

Hoje a batalha continua
Eu ainda morro várias vezes no dia
Mas eu tenho que voltar
E continuar a pelejar
Sorrindo ou chorando
Tenho que ser um super-humano
Não tenho super poderes
Mas tenho uma certeza:
Tenho que continuar lutando
Até não-sei-quando
Até eu voltar a ser um simples humano
... ou o que acontecer primeiro
Maio 2016


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O vento ventania ventava
E balançava a minha capa

sábado, 2 de abril de 2016

On-line e off-line

Vou desligar meus aparelhos
Só vou manter o espelho
Porque não tem jeito
É TV, CD e DVD
É GPS e VHS
É rádio a pilha e a bateria
É celular, sonar, radar
É micro-ondas e microcomputador
Vou deletar todos sem rancor
Sem pudor

Essa é minha decisão tomada:
Vou me desligar das tomadas
Chega de enrolação com fios
Chega de plugs
Chega de telas, teclas e teclados
Que venham sinais de fumaça
Tambores e pombos-correios
Sim às cartas e não a e-mails
Caderno de papel
Ler jornal até sujar as mãos
Escrever em papel de pão
O máximo em tecnologia
Seria uma máquina de datilografia
Pra exercitar minha escrita
Sou mais o texto de uma carta
Do que uma carta em mensagem de texto

Se isso é retrocesso
Então eu sou vintage e retrô
Avancemos ao tempo do meu avô
Se alguém disser “não vou”
Sem problemas
Mas não venha com dilemas
Nem reclame de erros de sistemas
Se tá sem bateria
Se acabou a energia
Se o download não finalizou
Se o celular se calou
Eu também não vou chiar
Se o meu vinil riscar
Se o caderno molhar
Se o livro amarelar
Se meu pé se embarrear
Se a ficha não cair

Mas eu digo, repito
E compartilho por todos os meios:
Desliguem meus aparelhos
Estou on-line
Mas quero viver off-line
Abril 2016

Estou on-line
Mas quero viver off-line

quarta-feira, 16 de março de 2016

Buracos

Vi um buraco
Estatelado na rua
Estirado na avenida
Atrapalhando a travessia
Todo mundo evita
Todo mundo desvia
Todo mundo se esguia
Todo mundo quer tirar fotografia
E reclamar na repartição pública

Vi um buraco
Estampado num pedaço de pano
Todo mundo desfila
Todo mundo mostra na camisa
Todo mundo expõe na calça comprida
O rasgado desleixado é da hora
Mas o buraco não é moda
Em gente que mora na avenida
Em gente rasgada pela vida

Tem muito buraco
No peito de muita gente
Gente sofrida
Gente com alma ferida
Gente que se cala pra ser ouvida
Gente que grita pra não ser esquecida
É tanta gente assim
Que cabe num buraco
Do tamanho da Lua

Igual buraco de rua
Recapeado ou esburacado
O peito da gente continua
Suportando solavancos
Aos trancos e barrancos
Em mansões ou em barracos
Nas avenidas da vida
Em vidas espalhadas pelas avenidas

Quanto mais o buraco aumenta no peito
Mais a gente se conhece por dentro
Março 2016



quinta-feira, 3 de março de 2016

Facilidades nas dificuldades

As dificuldades
Estão por aí
Estão por ali
Então por onde ir?
Então por onde fugir?
Tem pra todos os bolsos
Tem pra todos os gostos
Tem pra todos os choros
Tem pra todos os lados

Dificuldade não é novidade
É atualidade
Fica forte com a fraqueza
Fica fraca com a franqueza
E morre diante da firmeza
Mas sempre volta e marca presença
Pois é nossa natureza

Ah, mas uns diriam
Alguns gemeriam
Muitos reclamariam
Ainda outros proclamariam
A dificuldade é uma pedra no sapato
Deixa o pé machucado
Dá cria e forma até calo
Mas o calo lá de dentro
Do sapato apertado
Dedura logo o recado:
Manda outro
Porque esse já tá superado!
Eu penso meio encabulado
Cá com meus cadarços arrochados:
É uma gigante
Esse tal do dedinho mindinho!
Deixa qualquer dedão no chinelo

Facilidade?
Eu suspeito
Dificuldade?
Cadê a minha por direito?

Com a dificuldade
Tem que ser olho no olho
Tem que ser cara a cara
Encarar igual propaganda de banco
Todo mundo brinca e ri
Diante de adversidades e dificuldades
E tudo fica fácil
E basta um crédito rápido
Do gerente pra gente
Aí é só rir e bulir
Na cara da dificuldade
É tão fácil e tão sem noção
Quanto olhar pra televisão
Em pleno anoitecer
E dizer:
Boa noite, TV!
Março 2016


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A doçura de um rio

Você não se lembra de mim
Mas eu conheço suas águas
Desde outrora
Tu eras mais doce do que agora
Quanto amargo
Agora pela TV eu me deparo

Por favor, não contamines
Suas águas já descoradas
Olhando assim pra Mariana
Ela também sofre desta pragana
Vendo toda essa matança

Você era doce da cor do barro
Você era marrom de caramelo
Não conheci teus pés de jenipapo
Nem o coaxar dos teus sapos
As onças malhadas?
Nunca as vi nem pintadas
Mas em ti eu já molhei meus pés
E por ti eu fui bem recebido
Apesar de eu ser um gringo
Eu era da cidade grande
E fui te conhecer gigante

Ah, mas isso são histórias idas
Coisas das antigas
Muita gente ainda era viva
E agora você está morrendo
Os peixes já morreram
Mas nós vemos tudo isso
Sem poder morrer também

A gente puxa uma cadeira
Senta à sua beira
Se ajeita em frente da TV
E vê tudo isso acontecer
Em horário nobre ao anoitecer

A gente não fala nada
Só eles falam
Enquanto a gente se cala
Eles são dotô
Pra gente é jogo de horror
Eles são gente de estudo
Pra gente é tudo absurdo
Eles são os sabe-tudo
Pra gente é coisa do fim do mundo

O que a gente quer
É o Rio Doce
Correr nas veias
Das cidades mineiras
Descansar suas águas
Sob as sombras e os pés da Ibituruna
Sua beleza distrair os parapentes
Enquanto eles flutuam nas alturas
Ver o nosso rio
Saltar as cachoeiras
Seguir suas corredeiras
Se orgulhar de sua largura
Vê-lo esquecer dessa amargura
E finalmente retomar a sua doçura
E voltar a ser doce
Nosso Rio Doce
Dezembro 2015