sábado, 9 de julho de 2016

Tocha humana

A tela é pequena
Em poucas polegadas
Quase não cabendo naquela caixa
Ouço noticias das olimpíadas
Se não fossem sérias seriam piadas
Se não fossem trágicas seriam hilárias

Uma tal de tocha
Ficou chique e famosa
Aquele palito de fósforo gigante
Virou algo imponente e importante
Penso com meus botões faltantes:
Ela deveria usar gravata
E traje de gala
Já passeou de carrão e de avião
Teve escolta de caças
E segurança armada
Que baita celebridade de primeira página!
Vou pedir a essa dona tocha
Um autógrafo em minha camisa rasgada

E eu vejo todo reticente
Um amontoado de gente
Escancarando os dentes
Querendo sair na foto
Junto do fogo ambulante

Vendo toda essa farra
Lampião diria na cara:
Oxente meu povo
Praquê todo esse alvoroço
Por um punhado de fogo?

E a TV continua falando
E passando o recado
De um tantão de dinheiro arrecadado
Ajuntado e direcionado
Para as olimpíadas no Rio
É o que diz aquele resto de TV
Que está por um fio

O banco é de madeira
E a sala é pequena
Mas eu fico ali sem reclamar
A postos no posto
Afinal,
O dia dessa consulta custou a chegar
Afinal,
Não sou um fulano importante
Igual àquele fogo chamejante

E o horário nobre continua reportando
Por onde a tocha estará passando
Onde há fumaça
Há coisa errada

Fala a verdade:
Cada nação enaltece
A personalidade que merece
Julho 2016


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Manda chuva

Chuva devia fazer dieta
E cair na medida certa
Mas se algum humano reclamar
E falar pra ela cair devagar
A chuva vai responder sem gotejar:
A culpa é sua, criatura!

Não quero insinuar nenhum parentesco
Mas prefeitos e bueiros
Perdem o sono o ano inteiro
Quando desce o aguaceiro

Chuva não age antes de avisar
E avisa antes pra gente agir
Quando o céu tá escuro
Em nuvens sisudas e carrancudas
Pode saber que aí vem chuva
Aumentam as preocupações
Se tiver raios e trovões

Chuva na cidade
Apesar da modernidade
Ainda tem um glamour
Que lembra champanhe e liquor
Os faróis dos autos
Brilham no asfalto
E o tapete de luzes
Faz a noite dançar na chuva
E a lua ciumenta
Também brilha a sua silhueta
E brinca de brilhar
Até a chuva secar
Até o sol raiar
Até o sol ralhar

Mas o caos do trânsito
É um defeito colateral
É coisa fora do normal
Tira a paciência
Às vezes com violência
E a chuva antes galã
Vira vilã
E lá se vai sua beleza
Nossa dureza
Deturpa a chuva
E ela escoa moribunda
Em qualquer bueiro poluente
Somos nascidos mal agradecidos
Nem percebemos os benefícios
Nem os presentes recebidos
Que desce do céu
Ou brota da terra

Nem dizemos um obrigado
A Deus por tudo isso nos dado
Merecendo ou desmerecendo
Chuva e sol são regalos
Que caem bem no nosso quintal
Quando não cair mais
Então será tarde demais
Talvez um chuvisqueiro
Soará como um aguaceiro
Junho 2016


Chuva não age antes de avisar
E avisa antes pra gente agir

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Conta gotas

Toda goteira
Parede tortura chinesa
Aquele pinga, pinga
Parece bebum no buteco da esquina
Pedindo cachaça na faixa
Cada gota que cai
Parece bomba lançada
No chão lá de casa
O som da goteira
Incomoda os ouvidos
E dói em meu bolso sofrido
Mas cá com meus encanamentos furados
Até a goteira tem trabalhado
Enquanto eu continuo desempregado

À noite eu sou conta gotas
Preferia contar carneiros
Em busca do sono perfeito
Gotas noturnas com insônia
Ivadem a madrugada
O escuro não é páreo
Para essas saraivas que vêm do alto
Isso enche o saco
Transbordam baldes
E enchem bacias

Preciso de um encanador
Ou um empregador
Pra tapar vazamentos da vida
Me debruço sobre os classificados
Em muitos dias dedicados
Mas os anos se passaram
E minhas goteiras
Continuam fiéis companheiras
Tô dando nó em pingo d’água
Nessa luta árdua

Nessa fase da vida
Meu mundo quase perfeito seria
Canos sem vazamentos
Chuveiro quente
Torneiras sem goteiras
E registro na carteira
Junho 2016



Resultado de imagem para torneira pingando

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ah, braços!

Ah, braços
Que te quero abertos
Para se fecharem em abraços

Ah, braços
Que depois de fechados
Parecem laços
Em forma de abraços

Ah, braços
Que chegam secos
E saem molhados
Às vezes encharcados
E lá
Entre os braços
Vem um peito todo cheio
Para o aconchego

Ah, braços
Que chegam inteiros
E saem aos pedaços
Por terem se dado

Ah, braços
Que rodeiam e dão a volta
Vão longe até as costas
Costas outrora dispostas
Agora cansadas

Ah, braços
Que vêm com pacote fechado
São os ombros que chegam
Pra dar suporte aos abraços

Ah, mas nem precisa ter braços
Para alguém se doar
E oferecer seus abraços
Ah, braços
Junho 2016

Ah, braços
Vão longe até as costas

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Super-humano

Quando eu era menor
Eu tinha um super-herói
Desenhado em meu peito
Peito sem pelo e sem documento

Meu irmão desenhava
Então eu me transformava
Às vezes eu era invisível
Todos os dias eu era invencível
Balas de mamonas?
Eu era imune a todas
Meu batmóvel era uma bicicleta
Que me levava pelo bairro ou pra qualquer lugar da Terra
Eu pulava do segundo degrau
E voava pra combater o mau
O vento ventania ventava
E balançava a minha capa
Eu usava uma mascara
E minha identidade não era revelada
Meus inimigos diários
Tinham uns 10 centímetros
E eram de plástico
Nas batalhas eu nunca matava e sempre morria
Várias vezes no mesmo dia

Lutei em Gotham e Metrópolis
São Paulo, New York e Patópolis
Onde o dever me chamava
Lá eu estava
Eu enfrentava meus inimigos
E sempre ficava ferido
Às vezes eu lutava solitário
Muitas vezes eu era derrotado
Todo dia eu ia pra batalha
Armado com um sorriso na cara
Meu campo de batalha
Era o campinho de terra perto de casa

Hoje a batalha continua
Com a realidade nua e crua
Meu herói não é mais desenhado
Fica do lado de dentro guardado
Hoje eu não sou mais o herói de meus filhos
Como em tempos idos
Descobriram que não tenho super poderes
No lugar, super falhas e temores

Hoje a batalha continua
Eu ainda morro várias vezes no dia
Mas eu tenho que voltar
E continuar a pelejar
Sorrindo ou chorando
Tenho que ser um super-humano
Não tenho super poderes
Mas tenho uma certeza:
Tenho que continuar lutando
Até não-sei-quando
Até eu voltar a ser um simples humano
... ou o que acontecer primeiro
Maio 2016


Resultado de imagem para super criança
O vento ventania ventava
E balançava a minha capa

sábado, 2 de abril de 2016

On-line e off-line

Vou desligar meus aparelhos
Só vou manter o espelho
Porque não tem jeito
É TV, CD e DVD
É GPS e VHS
É rádio a pilha e a bateria
É celular, sonar, radar
É micro-ondas e microcomputador
Vou deletar todos sem rancor
Sem pudor

Essa é minha decisão tomada:
Vou me desligar das tomadas
Chega de enrolação com fios
Chega de plugs
Chega de telas, teclas e teclados
Que venham sinais de fumaça
Tambores e pombos-correios
Sim às cartas e não a e-mails
Caderno de papel
Ler jornal até sujar as mãos
Escrever em papel de pão
O máximo em tecnologia
Seria uma máquina de datilografia
Pra exercitar minha escrita
Sou mais o texto de uma carta
Do que uma carta em mensagem de texto

Se isso é retrocesso
Então eu sou vintage e retrô
Avancemos ao tempo do meu avô
Se alguém disser “não vou”
Sem problemas
Mas não venha com dilemas
Nem reclame de erros de sistemas
Se tá sem bateria
Se acabou a energia
Se o download não finalizou
Se o celular se calou
Eu também não vou chiar
Se o meu vinil riscar
Se o caderno molhar
Se o livro amarelar
Se meu pé se embarrear
Se a ficha não cair

Mas eu digo, repito
E compartilho por todos os meios:
Desliguem meus aparelhos
Estou on-line
Mas quero viver off-line
Abril 2016

Estou on-line
Mas quero viver off-line

quarta-feira, 16 de março de 2016

Buracos

Vi um buraco
Estatelado na rua
Estirado na avenida
Atrapalhando a travessia
Todo mundo evita
Todo mundo desvia
Todo mundo se esguia
Todo mundo quer tirar fotografia
E reclamar na repartição pública

Vi um buraco
Estampado num pedaço de pano
Todo mundo desfila
Todo mundo mostra na camisa
Todo mundo expõe na calça comprida
O rasgado desleixado é da hora
Mas o buraco não é moda
Em gente que mora na avenida
Em gente rasgada pela vida

Tem muito buraco
No peito de muita gente
Gente sofrida
Gente com alma ferida
Gente que se cala pra ser ouvida
Gente que grita pra não ser esquecida
É tanta gente assim
Que cabe num buraco
Do tamanho da Lua

Igual buraco de rua
Recapeado ou esburacado
O peito da gente continua
Suportando solavancos
Aos trancos e barrancos
Em mansões ou em barracos
Nas avenidas da vida
Em vidas espalhadas pelas avenidas

Quanto mais o buraco aumenta no peito
Mais a gente se conhece por dentro
Março 2016