segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Top five


Este é um texto bem humorado de algo desagradável ocorrido em minha conta corrente. Simplificando, uma concessionária de energia solicita o cadastramento de um débito automático em minha conta sem o meu conhecimento. O banco comete um outro erro e aceita. Ocorre o débito e dois dias depois meu inquilino, sem saber de nada, efetua o pagamento. Alguns dias depois, a concessionária envia-me uma carta informando sobre o não pagamento da conta e a possibilidade de inclusão de meu nome no SERASA. Foi uma sucessão de erros que aproveitei para transformar no texto abaixo.
_______________________________________________________________

Temos muitos tops na vida,
Registrar todos levaria a vida toda.

Tenho conta num banco gringo,
Já foi brazuca, mas mudou de figura.
Agora é vermelho igual capa de toureiro,
Poeira sobe igual nevoeiro,
E as tarifas ardem os olhos o ano inteiro.

A dona da energia é top one,
É a poderosa da maior cidade.
Disse ao meu ‘parceiro’ espanhol:
‘Cobra o seu correntado’.
Na véspera do feriado popular,
O valor caiu igual tijolo,
E espatifou-se em minha conta igual miojo.
Minha conta é tecnologia moderna,
Foi débito automático,
Sem eu ter solicitado.
Serviço ‘top dos top’.

O banco toureiro é top dois,
E fez ‘sim senhor’, ora pois.
Eu dormia igual um asno,
E à surdina tudo acontecia.
Depois do feriado dos presentes,
Adelson, meu fiel escudeiro,
No bom proceder de um cidadão,
Pagou o que a dona dos fios,
Já tinha nos bolsos,
Com a ajuda da espanholada.
Dios mío, isto é top três!

Longos quinze dias se passaram,
E a dona elétrica entrou em choque.
Com dois valores nos bolsos,
Preocupada me escreveu uma carta.
Lá dizia que se eu não quitasse,
Aquela famigerada conta de consumo,
Que já volumava em seus bolsos,
Meu nome seria enlameado e embarreado,
Num tal de serviço de proteção ao crédito.
Ó, fui sentenciado e incriminado,
Pelos gringos terem empacotado,
Uma conta duas vezes.
Isso é serviço top... top quatro.

Me senti no canto da sala,
Com cone na cabeça,
Sentado na cadeira elétrica,
Com tachinhas no assento.

Mas eis que não me faltava esperança,
Não me refreei e busquei ajuda,
E pintei no atelier do Van Gogh.
O ambiente era impressionista,
Mas depois de longas 48 horas,
A sua ajuda foi abstrata.
Esta pintura é digna de top five.
A solução veio daquela bancária,
Que fez algo que me impressionou:
Ela trabalhou!
Depois de tudo olhei ao redor:
Jogaram farinha no ventilador!

Os ‘top top’ iriam longe,
Então paro por aqui e dou um stop.
Mas durante o ano,
A contagem dos ‘top top’ vai continuar.
                                       Janeiro 2013


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Retrô

Retrospectando o ano findo,
Apesar de tantos,
Estou vivo e vou indo.
Foram poucos holidays,
Mas esses poucos foram bons.
Com sol e chuva na cara,
Tomei uns tombos,
E me fizeram cair na real.
Areia fina e água gelada,
Bombas e seu diminutivo,
Estavam e ficaram assim.

Não realizei provão e nem ENEM,
Mas fiz uns exames,
E o sangue me subiu.
O ano não se atrasou,
Chegou e me arrastou,
E a pressão foi total.
Quer uma receita para um bom ano?
Fico devendo,
Pois deixei várias na farmácia.

Muitos prêmios para uns e outros,
Com belos gols e bolas de ouro.
Minha borrachuda tava na área,
E às vezes encheu e quase estourou,
Em outras ficou vazia e murchou.
Mas a galera,
Não podia vê-la pingando.
Era oportunidade pra meter o pé,
E sair chutando.
Vontade deles,
Era mandar a minha gorducha,
Pra algum terrão da várzea.

Minha caneta labutou,
Se esgotou e se estressou.
Em dezembro ela cansou,
Me procurou e confessou:
To sentindo um vazio aqui dentro.
Fiquei de coração partido,
Mas vou arriscar a continuar,
Riscar e rabiscar umas folhas em branco.
Difícil é quando a inspiração tá distante...

Pra finalizar,
No fim de tudo,
Minha cara ficou assim.
Parecia bochecha de bolacha traquina,
Redonda, branquela,
E cheia de pelos e cabelos.
O pessoal me olhou de lado,
E ficou meio ‘sei lá, entende?’.
Eles diziam lá com seus botões e bordões:
Tá na cara descarada,
Que o criminoso está ali,
Atrás da máscara de pelos.
Com a cara e sem muita coragem,
Eu desconcordei e disse sim.
Me confundi todo,
E entenderam tudo.

O ano virou e vou me virando,
Desta para melhor.
Em dezembro a gente se encontra,
Para um outro retrô.
Que o mau tempo não se intrometa!
                                         Janeiro 2013


quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Show de horrores


Esse é o teatro da vida humana.
Todos os dias têm show,
Nem sempre tem espetáculo,
E todos os dias têm vaias.
Minha vida é um drama,
A platéia dramatiza e entende,
Mas se fazem de desentendidos,
E riem como fosse comédia,
E tudo acaba,
Num verdadeiro terror da vida alheia.
Aí eles vaiam, gostam,
E saem satisfeitos e dizem:
 Foi horrível,
 Mas valeu o ingresso que não pagamos.

As luzes se apagam,
E fico só naquele teatro.
Espelunca de quinta categoria.
O chão tem tomates,
Sapatos e latinhas.
Fiz drama, que virou comédia,
E terminou em terror.
Foi um fiasco,
E a platéia vaiou e desdenhou.
Não importa se o show,
É na Broadway, no Municipal,
Ou no Largo do Arouche.
O nível do povo é único.
Que esforço em vão!
Parece vara de pescar,
Com alfafa como isca,
E um burro tentando alcançar,
Pra comer e se fartar.
Vou morrer de fome!

O dia não perde a hora,
E vem bater na minha janela.
Levanto com a cara nua,
Abro o armário,
E escolho as máscaras para o dia.
Alegrias e tristezas,
Falsidades, verdades e mentiras...
Durante o dia uso todas,
E às vezes faltam algumas.
Na verdade ou na mentira,
Tire a sua máscara e me diga:
Você usa máscara?

É show com atores amadores,
Impostores e enganadores...
Que show de horrores!
Confesso de cara limpa:
Às vezes minhas máscaras caem,
Aí bate o desespero,
E todos vêem minha nudez.
Isso dá uma vergonha!
                              Janeiro 2013



domingo, 30 de dezembro de 2012

A chegada de um estranho


Me disseram que estou estranho.
Acho que é porque,
Agora mais do que nunca,
Estou parecido comigo.
  Pensamentos vêm e vão,
  Uns vêm e ficam,
  Outros sempre estiveram.
Alguns anos se passaram,
E minha barba deu na cara.
  Meio branca e cansada,
  Chegou e causou.
Olhares me olham calados,
Entre bocas inquietas e nervosas.

E agora, o que faço?
Continuo como o atual,
Em meu estranho meio ‘normal’?
  Ou volto ao passado,
  Naquele meu normal todo ‘estranho’?
Nem vou responder,
Senão vão achar meio estranho.
                                                                        Dezembro 2012


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Futuro testamento


Dezembro chuvoso lá fora,
Avisa que o fim do mundo se atrasou.
 Aqui dentro no porão inglês,
 A mesa fica molhada,
 Do suor gelado de meu copo.
  A minha cerveja fica quente,
  Pedindo que tudo se acabe.
  Eu concordo com a loira e peço outra.
A bartender aceita meu pedido,
E traz um copo, papel e caneta.
 É o que preciso pra escrever um testamento,
 E atestar meu pensamento.

Como testamento eu deixo a todos,
A minha vontade,
De voltar a soltar os cabelos,
Em meio aos ventos,
E cilindradas em duas rodas.

Deixo litros e litros,
Repletos e transbordantes,
De lágrimas salgadas,
E esguichadas aos cântaros,
Por alegrias descontroladas,
E gargalhadas de doer a alma.
 Deixo litros e garrafões,
 Chorados e esgoelados,
 Em terras de gringos,
 A milhas e milhas distantes daqui.
Deixo garrafões e tambores,
Cheios até a boca,
Escorrendo pelas bordas,
Com lágrimas gosto de sal,
Por causa de sentimentos mil,
Que vinham a mil,
Desde os tempos do vinil.

Ah, eu também deixo,
Minha vontade de cantar,
Blues, jazz e rock,
Além de MPB de minha terra.
 Ao fundo uma gaita cortante,
 Como que sendo tocada,
 Numa estrada empoeirada do Texas;
Um sax riscando a noite fria,
De São Paulo ou Nova York,
E a bateria batendo e batendo forte,
Se confundindo e se misturando,
Ao ritmo da caixa de som de meu coração;
  E o solo de uma guitarra,
  Chorando um metal anos 70 ou 80,
  Like a rolling stone knocking, knocking on heaven’s door,
  In a cold November rain.
Deixo também,
Algumas linhas escritas,
Com versos pobres,
E rimas mal feitas,
Para tentar tocar o coração,
De pessoas que lêem,
E não reparam nessas bobagens e futilidades.

Por fim,
Deixo algumas contas,
Que prometi que pagaria,
Mas não paguei.
 E daí? Poe no SPC e proteste!
 Só não garanto estar presente na audiência.

Eu também deixo atestado,
Que eu te amei.
 Mas eu confesso,
 Foi um verbo pouco usado.
 Culpa de nós dois: eu e a vida.
 Eu me envolvi demais com a vida,
 E a vida se intrometeu demais em minha vida.
Sure I could... I’ll be there for you...

Esse é o meu testamento.
E o seu, como vai ser?
 Olhe para a sua vida,
 E ateste por escrito.
Uma coisa eu sei e tenho dito:
Seus garrafões, tambores e litros,
Tem de encher até a borda,
Escorrer e inundar toda a sua vida.

Já é tarde, vou pagar a conta,
Sair do porão e ir pra rua.
 Chove aos cântaros,
 E os bueiros estão cheios de tudo.
Have you ever seen the rain,
In a hot December night?

                                      Dezembro 2012


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Mr. C

O Mister M tinha segredos,
E não os revelava.
Foram segredos de sucesso,
E eram guardados,
 Dentro de baús acorrentados,
 Chaveados e trancados.
Truques trancafiados,
Para não serem plagiados.
 Mistérios que não podiam,
 E não deviam ser desvendados.

Eu sou o Mr. C,
E tenho segredos como você.
Ficam guardados,
Aqui e ali,
Dentro de mim.

E você,
É Mr. ou Mrs. de A a Z?
 Não sei quem é você,
Mas sei e tenho certeza,
Que tens seus segredos,
Bem escondidos e guardados.
São segredos de que tipo?
Cuidado ao classificá-los!
Uns devem ser eliminados,
E também,
Ser esquecidos.
E não se esqueça,
De não se lembrar deles.

O Mr. M não tinha poder,
Para as coisas fazer desaparecer.
Eu e você também não temos,
Mas devemos nos livrar,
De segredos e mistérios,
Enferrujados e embolorados,
Que podem fazer mal,
Dentro e fora de nós.
Segredos bons?
Guarde todos.
Segredos ruins?
Esqueça deles,
Ou conviva por toda a vida,
Mas com vida.
                                      Dezembro 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O impossível da missão

Missão impossível,
É ver as dificuldades e dizer:
 'É a vida, o que vou fazer?',
E continuar a fazer,
Fazer o que tiver de fazer.

Missão impossível,
É perder alguém na morte cruel,
Secar as lágrimas,
E ter que continuar caminhando,
Ou se arrastando,
Pois um outro dia sempre está chegando.
... E continuar a se fazer de forte;
Ser forte sem força nenhuma.

Missão impossível,
É de manhã cedo preparar a marmita,
No almoço ter meia hora pra comer a comida;
E continuar a fazer o trabalho,
Pra conseguir o pão,
Porque ninguém faz no seu lugar, não!

Missão impossível,
É trabalhar o mês inteiro,
Esperar ansioso pelo pagamento,
Mas ele dura só até a metade do mês.
E o restante do mês?
Isso é outra missão!

Missão impossível,
É se olhar no espelho,
E ver olhos fundos e profundos.
Um ‘amigo’ te olha e pergunta:
Tudo bem?
Mas ele sabe que não está tudo bem.
Você responde:
Tudo bem!
Mas você sabe que ele sabe,
Que você não está bem.
Ele vai pra lá e você pra cá,
E fica tudo bem...
E tem que ficar tudo bem!

Missão impossível,
É fazer o possível e o impossível,
Pra fazer as coisas...
E as coisas acontecem...
E alguém sem noção nenhuma dizer:
Não é possível!Você só fez isso?
Dá vontade de abortar a missão.
Mas isso é impossível,
E você, simplesmente,
Nada mais que simplesmente,
Faz o mais difícil:
Continua...

Missão impossível,
É ser feito de bobo,
Por quem você vê o tempo todo,
E ter de continuar a viver,
Com esse sujeito tolo.
Dá vontade de expulsar,
Esse cara que insiste em te cutucar.
O nome dessa missão?
O inimigo que mora ao lado do pulmão.

...E por mais impossível que pareça,
Por mais que pareça impossível,
Você consegue ir,
Põem um sorriso na cara,
E continua sua missão impossível.
Pra você,
Não existe missão impossível.
O impossível da missão,
Você já fez:
Você está vivo,
Apesar de tudo e de todos.
                   Dezembro 2012