segunda-feira, 4 de maio de 2015

Se meu Fusca voltasse

Olhando de frente
Ele parece gente
Ele é simples
E parece gente igual à gente
Olhos grandes e redondos
Para-choques risonhos
Sujeitinho amistoso
Quem nunca teve um?
Se não teve já andou em algum

Ele se foi
Mas continuou com o povo
O irmão mais novo
Tem capô empinado
Tem cara de metido
Virou o New Beetle
Até difícil de pronunciar isso!

Aquele antigo
O irmão mais velhinho
Tinha a cara de uma nação
Representou uma geração
Era a cara do básico
Ele era o necessário
Jeitão operário e assalariado
Mas nem por isso
Nos sentíamos menos valorizados
Com o Besouro
O resto era ouro pra tolo

Ê época boa sem preconceito
Ele até virou o Fuscão preto

O meu era branco
Igual minha conta no banco
Todo pelado e básico

E se ele falasse?
Talvez ele dissesse muitas verdades
Talvez não fosse mais unanimidade
Talvez perdesse sua humildade
Talvez fizessem dele uma obscuridade
A época exigia serenidade

Carro bom foi aquele
Conheceu o mundo
Rodou muito
Viu de tudo
E falou pouco
                                      Maio 2015

quinta-feira, 23 de abril de 2015

White guitar

Meu filho Matheus Naves comprou uma guitarra, mas o instrumento deu problemas e ele a devolveu ao fabricante. Quanta tristeza... até ele comprar outra! Mas tenho certeza que ele sempre irá se lembrar de sua primeira guitarra: a guitarra branca.
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Pobre de minha guitarra branca
Foi amor a primeira vista
Com pagamentos a prazo
Poder ser abuso de minha parte
Mas já a estava chamando
De Branca de Naves
Tantas eram
Nossas cumplicidades e afinidades

Aquela coisa fina
Desafinou e se estragou
Produziu desacordes
Sem acordos com as notas
O som não era de uma Gibson
Tampouco uma Fender
Mas cá com os botões meus
Eu iria batizá-la e honrá-la
Como uma legítima Von Matheus

Mas a branquinha me deixou
Que saudades de suas tarraxas
Nossas cordas seriam felizes
Metais e vocais
Cordas e notas
Em puros devaneios
Sorry!
Sem escusas a tímpanos alheios

Mas ela se foi
E eu procuro por outra
Uma outra de qualquer cor
Seja como for
A música não tem cheiro nem cor
O sentido é ouvir e sentir
As notas a bailar pelo ar e por aí
                                             Abril 2015



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Roçar

Lembrando da Iolanda Cruz que, quando nos visitou em Fevereiro de 2013, juntamente com a Ivone, plantou alguns legumes nos fundos de casa. Ficaram somente saudades, pois agora ela está na memória de Deus.
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Fui capinar o quintal
Fui roçar o matagal
Confesso que o mato tava assim
Daquele jeito
Cavuquei a terra
E muitas minhocas
Dançavam igual funk dos cariocas

Meti a enxada
E acertei uma batata
Aí foi batata!
Depois de umas roçadas
Colhi mais 3 leguminosas
A salada vai ficar saborosa
A Iolanda ficaria orgulhosa

Lavei a alma
Com o corpo sujo de barro
Me senti um homem da terra
Com o suor na testa
O suor descia melado
Todo embarreado e suado

O céu era amarelo e ficou cinza
E a chuvarada veio de cima
Fechei os olhos e olhei pro alto
A água lavou meu marrom
E voltei a ser apenas homem
Homem igual gente
Homem branco sem cor de terra

Sou do asfalto
E pouco conheço a terra
Mas um dia vou ficar só
E vou voltar ao pó
                                                       Abril 2015

segunda-feira, 23 de março de 2015

Tchau pai tchau filho

Tchau pai
Vou sair do berço
E dar umas caneladas pela casa

Tchau pai
Vou jogar bola no campinho
E dar umas caneladas na bola

Tchau pai
Vou para a escola
E dar umas canetadas na prova

Tchau pai
Vou conhecer minhas esquinas
E dar umas cabeçadas pela vida

Tchau pai
Chegou a hora da minha ida
Vou sair de casa e cuidar de minha família

Tchau filho
Obrigado por ter me ensinado
Enquanto eu pensava que te ensinava
Março 2015




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Este lado pra cima

Este lado é pra cima
Cabeça erguida
Olhos arriba
Com pés no chão
Um passo a cada vez
Um por vez
Todo dia, todo ano, todo mês

Este lado é pra cima
Deixando as coisas ruins de lado
Deixando as coisas boas ao lado
E se deixando levar
Pelo lado bom das coisas
Andando lado a lado
Nem adiantado
Nem atrasado
Mas lado a lado
Com alguém do lado

Se cuida
Pra não ouvir cuidado
Nem coitado
Cuida do seu lado
Principalmente o de dentro
O lado de dentro cala fundo
E grita alto
Pra rir bem alto
Ou pra chorar baixo

Mas cuidado
Este lado é pra cima
Porque o conteúdo
É forte mas é frágil
O contrário também é válido
Fevereiro 2015


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Força da expressão

Passado preso
Prisão da garganta
Depressão na prisão
Pressão pra liberdade
Enfim
Liberdade de expressão

E agora?
O que dizer com fotografias
O que escrever com microfone
O que discorrer com charges
O que desenhar com canetas
O que ouvir com lápis
Parecem cães soltos
Num trânsito revolto
Sem coleira e sem dono
Perdidos numa selva perdida

Como concordar com senso de educado?
Como discordar sem querer matar?
Ó, temos tanto a ofender
Com tão poucas palavras

O limite vai além do céu de muitos
E avança pelo inferno de outros
Mas a respeito do limite
O limite é não ter respeito

A intolerância e a liberdade
Passeiam de mãos dadas
O que importa é a primeira página
O importante
É bombar nas bancas

Em certas terras tome cuidado
Não chame cicrano de cachorro
Aranha ou macaco
Nem diga que fulano saiu do armário
Você pode virar um presidiário
Ah, mas em outros cenários
É livre o escárnio
A caneta goteja o ácido
Abra o olho
Pimenta na fé dos outros
É refrescante e é válido

P@r@ 1 b*m 10entendiment*
P*uc@s p@l@vr@s b@st@m
Janeiro 2015



P@r@ l bom 10entendiment*
P*uc@s p@l@vr@s b@st@m

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Pouca luz

A conta já chegou
O disjuntor nem caiu
A fatura eu paguei
Mas a luz sumiu

Quantos candidatos a culpados
Mesmo sem palanques e calados
Os fios desencapados
Balançavam igual varal descamisado
A ventania ventava
E redundava redemoinhos
Cadê os eletricistas?
Subam nos postes
E gritem lá de cima:
Faça-se luz!

Domingo no escuro
Que dia obscuro
Na rua um carro sisudo
Desfilava com olhos vidrados
O vagalume feito um vagabundo
Rebolou sua luz wireless
E eu chutando
E machucando meu dedão
Nas quinas, esquinas
E cantoneiras pela casa

Pobre de mim
Eu do meu canto
Olhando e secando a lâmpada
E nem era mágica
Nem de Aladdin

Pobre de mim
A lua não colaborou
E seu lugar também se apagou
Ê saudade de brincar com vela
Derreter a cera e queimar a mão
Parecia mini lava de vulcão
Que escorria e derretia
A chama da vela era esguia
Parecia uma dama fina
Olhado pra cima
Mas quando ela finda
Fica cheiro de sem vida

A luz artificial voltou
Mas a minha é natural
E precisa continuar brilhando

Amanhã
Faça luz ou faça sol
Vai ter segunda
                                                Janeiro 2015