quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Saco!

Já era noite,
O escuro já estava no ar,
E eu vi algo branco,
Voando e flutuando.
Aquilo tentava passar despercebido,
Mais parecido a um cão perdido.

Que saco!
E era de plástico,
Acho que de mercado,
Talvez até furado,
Mas era um saco!
E seu flutuar era mágico,
Quase sádico, todo anárquico,
E eu apático dentro do carro.

Que péssimo contraste,
Da noite escura toda pura,
Com aquele branco sujo,
Sugismundo igual ao dono,
Daquele saco sujo.

E o vento continuava a soprar,
Aquele lixo a bailar.
Parecia bailarina de botina!
Mas não adiantava ventar,
E tentar levar aquela leveza.
Aquele peso para a natureza,
Ia continuar a flutuar,
Dançar até repousar,
Em sua casa ou em meu lar,
Na minha rua ou em nosso mar.

Quiçá todo lixo fosse fiel e saudosista,
Pudesse retornar à sua família,
Voltar para o aconchego de seu dono,
Igual cachorro após o abandono.
Outubro 2014



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

2 folhas Ah!4

50 anos em 2 folhas A4.
Ah, quadro!
Retrato calado,
Em papéis pautados!
Parece trabalho fácil;
É 25 de cada lado,
Pra não dar briga,
Nem causar intriga. 

A vida em riscos aos rabiscos,
São os riscos da vida.
Eu me arrisco em viver assim,
E assim vou vivendo.
Um risco a cada dia,
Senão é arriscado viver assim!

A minha vida está no papel,
São papéis da minha vida.
É o tal do resumão,
E coisa e tal.
Prepare-se mermão!
É cada papelão!

Minha tinta ia tirar,
A pureza daquele branco,
Com uma história e tanto!

A caneta destampou sua tampa do topo,
Me olhou e reclamou:
Não me aperte assim,
Senão minha tinta sai vermelha carmesim!
Fiquei meio sem jeito,
De cara vermelha,
E respondi pra minha parceira:
Eu é que estou nos apertos!

Mas as folhas foram se enchendo de mim,
Entre perguntas firmes,
E respostas entrelinhas.
Os riscos foram saindo,
Pareciam escritos de pergaminho.

Quem for ler prepare-se;
É história pra palhaço chorar,
E hiena parar de rir.
É história pra boi dormir,
E vaca secar o leite.

E você,
Tá rindo de quê?
                                         Setembro 2014


Minha tinta ia tirar a pureza daquele branco

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O mendigo e o tesouro

Hoje eu vi um sujeito.
Muitos diriam que é um suspeito.
Outros que era um ‘sem jeito’.
Muitos outros arriscariam que não tinha jeito.
Mas todos, sem respirar fundo,
Diríamos que é um mendigo.
Nada mais e muito menos que isso.

Mais um à toa de vida boa.
Menos um pra pagar imposto,
Pra viver de encosto.
Quantos adjetivos qualitativos,
Discriminativos e depreciativos!

Eu, meio sem jeito,
E suspeito em dizer,
Apenas pensava comigo e por todos:
Hoje é ele que está ali,
Mal tratado e maltrapilho,
Todo cinza, esquecido,
Mal visto e maldito,
Por nós que nos achamos coloridos.

Amanhã, quem sabe,
(E não quero saber),
Eu desço e ele sobe,
Neste sobe e desce,
Nestas rodas e voltas,
Que o mundo dá e depois cobra.
E naquela situação,
Eu não vou ter como pagar, não!

Eita mundo com poeira e sem porteira,
Sem eira nem beira.
Mundo que parece mar revolto,
Que afunda barcas e embarcações.
Olhando por cima,
É fácil ver o sujo que boia.
Difícil é olhar o profundo,
Onde o olho não vê o escuro.
A prata e o ouro do tesouro,
Repousa longe do olho.
Chegar lá é privilégio de poucos.

E olhe que o ouro,
Fica coberto de sujo e lodo.
Até parece mendigo esquecido,
Que guarda um segredo no íntimo.
Ali o tesouro fica protegido.
Setembro 2014


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Ventos e vassouras

O vento sopra forte,
E desnorteia folhas e cabelos,
Saias, vestidos e borboletas.
Feche os olhos,
Pra não pagar mico,
E ganhar um cisco.

Naquele redemoinho de coisas,
Muita coisa deveria ir embora,
Pra bem longe sem demora.

O gari vai dar muita vassourada.
Papel de bala,
Bitucas na calçada,
Camisinhas furadas,
Santinhos de candidatos,
E candidatos a santinhos.

E o vento vai varrendo,
Ajeitando o mês pra setembro.
No próximo mês é tudo novo.
Esperança e imposto,
Flores, roupas e contas.
O ipê amarelado,
Vai ficar descabelado.
O papelão com cara de edredom,
Vai deixar alguém na mão.
Vai voar pelos ares,
E virar lar de outro alguém.

O vento vai virar o mês,
E eu me virei não sei como.
Nem sei como eu vou me virar,
No próximo mês outra vez.

Vou falar com meu amigo gari,
E pedir truques e dicas,
De como dar vassouradas por aí.

Preciso limpar e faxinar,
Meus arredores e interiores.
                                                 Setembro 2014



terça-feira, 2 de setembro de 2014

Caneca se fervendo

Eu observo o leite fervendo,
E já faz tempo.
Eu observo e nada faço.
O que faço é observar,
O leite a borbulhar.
Desde o início do ser humano,
O leite vem se esquentando.

Parece vulcão enfurecido,
Que outrora estava adormecido.
Quando o gigante desperta,
Todo mundo se desespera.

Mas a caneca é toda aberta,
E não esconde nada de ninguém.
Ela é vítima e não tem culpa.
Nessa realidade,
Todos são vitimados,
Todos são culpados.
O mais inocente é o fogão,
Que só esquenta a situação.

E o leite passou da metade,
E nós passamos das medidas.
E todos ficamos de boca aberta,
E de braços cruzados.
Quero ver até onde isso vai dar...
E não dá outra!
Agora basta uma distração,
Com a situação,
Pro leite se escorrer pelo fogão,
E se esparramar pelo chão.
A situação pediu um basta!

O fogão abriu suas bocas,
E o calor avisou pelos polos.
A caneca apitou,
Mas ninguém esquentou.
As geleiras se derreteram por nós,
E nós respiramos fundo pela Amazônia.
O buraco se abrindo lá em cima,
Era sinal que o buraco é mais embaixo!

Agora não dá mais tempo,
Pra pedir um tempo.
Agora é só sentar e chorar,
O leite que vai derramar...
Setembro 2013



segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Vivendo igual água

No planeta Terra,
A gente vive o ciclo da água.

No inicio a gente parece um pingo,
Mas já vai subindo,
Indo até o auge do ciclo.

Lá a gente se sente grande,
Se sente por cima,
Se sente vendo por cima,
Se sente gente na vida,
Se sente...

A vida tem muito valor,
Mas é frágil igual vapor.

A vida parece a chuva com seu frescor,
E o vapor desce como chuva.
Ora a chuva desce com ira,
Ora a chuva desce em calmaria.

A chuva se precipita humilde,
E rega o solo com sede.

Ela voltou...
Humilde à sua origem;
Voltou só,
Voltou ao solo feito .

Água e gente:
São iguais,
Da origem ao poente.
                                               Agosto 2014

No inicio a gente parece um pingo

sábado, 9 de agosto de 2014

Tem gente!

Tem gente,
Que quer ir para o céu,
Mas não quer morrer.

Tem gente,
Que quer ser malandro,
Mas não quer ser bandido.

Tem gente,
Que quer ser rico,
Mas não quer trabalhar por isso.

Tem gente,
Que pode até perder,
Mas não quer ver o outro vencer.

Tem gente,
Que quer virar a noite,
Se embriagando e tomando,
Mas sem tomar os tombos.

Tem gente,
Que quer ter,
Mas não quer pagar pra ter.

Tem gente,
Que dá bom dia,
Mas só se tiver um dia bom.

Tem gente,
Que faz suas rezas,
Mas só pra ser abençoado,
E se livrar das mazelas.

Tem gente,
Que barganha,
E não sente vergonha.

Tem gente,
Que quer ser político,
Mas não quer ser pego por isso.

Tem gente,
Que quer mentir,
Mas ninguém pode descobrir.

Tem gente,
Que quer ser brasileiro,
Mas não quer sofrer o ano inteiro.

Tem gente,
Que quer morrer,
Mas vive vivendo pela vida.

Tem gente,
Que quer viver,
Mas não quer chorar.

Tem gente,
Que quer viver a vida,
Mas não quer sonhar.

Tem gente,
Que quer sorrir,
Mas não quer fazer rir.

Tem gente,
Que quer ser gente,
Mas não quer viver igual gente.

Já notou?
Tem gente,
Que pensa igual à gente!
Agosto 2014