sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Palavras cruzadas

Palavras letradas
Palavras erradas
Palavras sem consoantes
Palavras que soam como antes

Palavra igual lança
Palavra que acalma e amansa
Palavra com aroma de rosa
Palavra boa de prosa

Palavras presas na garganta
Palavras na língua solta
Palavras na emoção do coração
Palavras na cabeça, cheias de razão

Palavras soltas ao vento
Palavras soltas sem pesar
Palavras que não deveriam ser soltas jamais
Palavras iguais folhas, vão e não voltam mais

Palavras cegas, quando vê já falou
Palavras mudas, não dizem nada
Palavras que dizem muito, sem palavras
Palavras que marretam e destroem
Palavras que alicerçam e constroem

A boca solta palavras
Palavras iguais colunas na vertical
Palavras iguais paisagens na horizontal
Procuram igualdade numa letra
Então viram palavras cruzadas
Vem e vão
E dão vida ou morte
Pra quem vai e pra quem vem

Na dúvida ou na incerteza
Deixe a palavra presa
Engula e deixe-a na clausura
Vai ficar um nó
Mas não tenha dó
Melhor refiná-la no ventre
Do que vomitá-la na frente
De tudo e de todos...

Senão, caro leitor
Nem apronte os tímpanos
Pois palavrões serão ouvidos
                                            Dezembro 2014



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

24 horas

24 horas o dia todo
São números que não se acumulam
Recebemos o crédito
Acontece o débito
Se o saldo tá azulado ou negativado
É igual sigilo bancário
Só é pertinente
Ao correntista e ao gerente

24 horas não dá pra nada
Em um dia queremos 25
Mas o crédito é justo
Eu recebo igual a você
Você recebe o mesmo que eu
Oras
Salário pago na hora
Tudo em dia
Todo dia
Toda hora

Às 24 horas o saldo zera
E começa tudo do zero
Mais 24 horas
De crédito e débito
Minuto a minuto

E continua a contagem
E a vida continua
Até o próximo minuto

E depois?
Novembro 2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Comer ou não comer

Tem gente que pouco come
Porque quer cuidar do abdome
Se sua vida for saudável
Isso é louvável
Se seu modelo de vida
For um artista da revista
Se quiser ter a vida alheia
Isso causa até olheira

Tem gente que come muito
Porque largou mão de tudo
Se a balança não incomoda
Se não se importa
Com a roupa que lhe arrocha
Então só não descuide do colesterol
E cuide do suor

Comendo isso ou aquilo
Assado ou mal passado
Comendo muito ou pouco
Esqueça o desgosto
Ligue as papilas gustativas
E aprecie a comida
E saiba responder:
Você come pra viver
Ou vive pra comer?

Dependendo da resposta
O Ministério da Saúde não se importa
Mas o médico deverá ser consultado sem demora
                                                                Novembro 2014




sábado, 1 de novembro de 2014

Água nos olhos

Pra todo olho que olho vejo água
Águas salgadas pelas praias
Águas adoçadas nas cachaçarias
Águas entornadas nas cantinas
Águas amargas pela vida

Às vezes eu falo disso e daquilo
Talvez certos assuntos esquisitos
Então alguns me replicam:
Isso é coisa da sua cabeça!
E quando digo que vejo água
Aqui e acolá pelos polos
Novamente me corrigem:
Isso é coisa de seus olhos!
Então seco os olhos
Baixo a cabeça e concordo
Água nos olhos
Quero ver o que você vê...

Dizem que homem não chora
Mas homem que é humano chora
Chora aparecido ou escondido
E às vezes chora igual menino
Quem for homem crescido
Diga que estou mentindo

Haja fronhas e guardanapos
Todos encharcados
De gosto salgado
O sol vai suar pra secar
Tantos prantos nos panos
De gente aos trapos e farrapos

Mas depois de secos
Os olhos maquiados
Outrora marejados
De cara limpa vão pra vida
Nunca prontos pra chorar ou pra sorrir
De novo e novamente
Mas que venha o que for
Pra causar sorriso ou dor

Os olhos sorriem e a boca agradece
O peito se enche contente
E o coração se bate todo alegre

Nenhum olho é de ferro nem de aço
Então guarde um guardanapo
Num bolso que não esteja furado
                                                       Novembro 2014

Água nos olhos
Quero ver o que você vê...

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Clarinete solitário

Andando na Avenida Paulista em 03 de outubro de 2014.
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E na Avenida Paulista
Um solitário clarinete solista
Solta algumas notas represadas
Notas que bailam e flutuam
No meio do ar e poluição
Mas elas não se misturam
Pois apenas um é puro

O músico fica sentado
A partitura se mantém em pé
E no chão sonhos e cifras
Notas e moedas ficam caídas

E nós transeuntes
Em meio a transtornos e tragédias
Estamos cheios de tudo e de trânsito
Quase transbordando de traumas
Nós escutamos, mas não ouvimos
O clamor do clarinete
Vivemos em total torpor
Na São Paulo cheia de rancor
Não! Estamos decididos!
Não queremos gastar os ouvidos
Nem ocupar nossos tímpanos
Com músicos solitários

E os olhos do tocador
Se fecham enquanto sua música
Pede espaço no trânsito da avenida
Como somos injustos com o músico
Não lhe damos nem um centavo
De tempo nem de nada

Mas para o verdadeiro músico
O show não pode parar
Por isso ele não para de tocar
Na calçada da Avenida Paulista
Ou num bairro da periferia
Outubro 2014





sexta-feira, 10 de outubro de 2014

EXtrada

A estrada parece amiga de todos
Nos permite de tudo
E nem pergunta quem somos

Que dama charmosa
De curvas perigosas e sinuosas
Ela envolve os mais ávidos
Pra não devolver suas vidas
Eles vivem passando dos limites
E morrem jovens
Talvez aos 80, 100 ou 120

Que presa cheia de pressa
Tão fácil de pegar

A estrada se adorna e se pinta
Pinturas e tinturas
Com marcas chamativas
Que cativa suas vítimas automotivas

Eles se deixam e tonteiam
Em suas curvas de serpentes
A estrada tem canto
E encanto de sereia
Na hora do beijo
Tudo vai pro brejo
A queda é grande
Do tamanho dum desfiladeiro

Naquele momento derradeiro
Ela olha pra baixo
E sorri por um momento
Na beirada de seu acostamento
E seu sorriso de vitória
Tem cheiro de borracha
E som de pneu careca
Ela chamou pra bailar
E só ele rodopiou e dançou

Mas na estrada nada para
E tudo continua
Ela volta a desnudar suas curvas
Para o próximo animal
Que se gaba e se enfuna:
Seria um lobo da estrada
Ou um coiote do asfalto?
E a estrada vai ao encalço
De mais um asno volante.
Outubro 2014

Que dama charmosa
De curvas perigosas e sinuosas



quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Saco!

Já era noite,
O escuro já estava no ar,
E eu vi algo branco,
Voando e flutuando.
Aquilo tentava passar despercebido,
Mais parecido a um cão perdido.

Que saco!
E era de plástico,
Acho que de mercado,
Talvez até furado,
Mas era um saco!
E seu flutuar era mágico,
Quase sádico, todo anárquico,
E eu apático dentro do carro.

Que péssimo contraste,
Da noite escura toda pura,
Com aquele branco sujo,
Sugismundo igual ao dono,
Daquele saco sujo.

E o vento continuava a soprar,
Aquele lixo a bailar.
Parecia bailarina de botina!
Mas não adiantava ventar,
E tentar levar aquela leveza.
Aquele peso para a natureza,
Ia continuar a flutuar,
Dançar até repousar,
Em sua casa ou em meu lar,
Na minha rua ou em nosso mar.

Quiçá todo lixo fosse fiel e saudosista,
Pudesse retornar à sua família,
Voltar para o aconchego de seu dono,
Igual cachorro após o abandono.
Outubro 2014