quarta-feira, 22 de abril de 2015

Roçar

Lembrando da Iolanda Cruz que, quando nos visitou em Fevereiro de 2013, juntamente com a Ivone, plantou alguns legumes nos fundos de casa. Ficaram somente saudades, pois agora ela está na memória de Deus.
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Fui capinar o quintal
Fui roçar o matagal
Confesso que o mato tava assim
Daquele jeito
Cavuquei a terra
E muitas minhocas
Dançavam igual funk dos cariocas

Meti a enxada
E acertei uma batata
Aí foi batata!
Depois de umas roçadas
Colhi mais 3 leguminosas
A salada vai ficar saborosa
A Iolanda ficaria orgulhosa

Lavei a alma
Com o corpo sujo de barro
Me senti um homem da terra
Com o suor na testa
O suor descia melado
Todo embarreado e suado

O céu era amarelo e ficou cinza
E a chuvarada veio de cima
Fechei os olhos e olhei pro alto
A água lavou meu marrom
E voltei a ser apenas homem
Homem igual gente
Homem branco sem cor de terra

Sou do asfalto
E pouco conheço a terra
Mas um dia vou ficar só
E vou voltar ao pó
                                                       Abril 2015

segunda-feira, 23 de março de 2015

Tchau pai tchau filho

Tchau pai
Vou sair do berço
E dar umas caneladas pela casa

Tchau pai
Vou jogar bola no campinho
E dar umas caneladas na bola

Tchau pai
Vou para a escola
E dar umas canetadas na prova

Tchau pai
Vou conhecer minhas esquinas
E dar umas cabeçadas pela vida

Tchau pai
Chegou a hora da minha ida
Vou sair de casa e cuidar de minha família

Tchau filho
Obrigado por ter me ensinado
Enquanto eu pensava que te ensinava
Março 2015




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Este lado pra cima

Este lado é pra cima
Cabeça erguida
Olhos arriba
Com pés no chão
Um passo a cada vez
Um por vez
Todo dia, todo ano, todo mês

Este lado é pra cima
Deixando as coisas ruins de lado
Deixando as coisas boas ao lado
E se deixando levar
Pelo lado bom das coisas
Andando lado a lado
Nem adiantado
Nem atrasado
Mas lado a lado
Com alguém do lado

Se cuida
Pra não ouvir cuidado
Nem coitado
Cuida do seu lado
Principalmente o de dentro
O lado de dentro cala fundo
E grita alto
Pra rir bem alto
Ou pra chorar baixo

Mas cuidado
Este lado é pra cima
Porque o conteúdo
É forte mas é frágil
O contrário também é válido
Fevereiro 2015


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Força da expressão

Passado preso
Prisão da garganta
Depressão na prisão
Pressão pra liberdade
Enfim
Liberdade de expressão

E agora?
O que dizer com fotografias
O que escrever com microfone
O que discorrer com charges
O que desenhar com canetas
O que ouvir com lápis
Parecem cães soltos
Num trânsito revolto
Sem coleira e sem dono
Perdidos numa selva perdida

Como concordar com senso de educado?
Como discordar sem querer matar?
Ó, temos tanto a ofender
Com tão poucas palavras

O limite vai além do céu de muitos
E avança pelo inferno de outros
Mas a respeito do limite
O limite é não ter respeito

A intolerância e a liberdade
Passeiam de mãos dadas
O que importa é a primeira página
O importante
É bombar nas bancas

Em certas terras tome cuidado
Não chame cicrano de cachorro
Aranha ou macaco
Nem diga que fulano saiu do armário
Você pode virar um presidiário
Ah, mas em outros cenários
É livre o escárnio
A caneta goteja o ácido
Abra o olho
Pimenta na fé dos outros
É refrescante e é válido

P@r@ 1 b*m 10entendiment*
P*uc@s p@l@vr@s b@st@m
Janeiro 2015



P@r@ l bom 10entendiment*
P*uc@s p@l@vr@s b@st@m

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Pouca luz

A conta já chegou
O disjuntor nem caiu
A fatura eu paguei
Mas a luz sumiu

Quantos candidatos a culpados
Mesmo sem palanques e calados
Os fios desencapados
Balançavam igual varal descamisado
A ventania ventava
E redundava redemoinhos
Cadê os eletricistas?
Subam nos postes
E gritem lá de cima:
Faça-se luz!

Domingo no escuro
Que dia obscuro
Na rua um carro sisudo
Desfilava com olhos vidrados
O vagalume feito um vagabundo
Rebolou sua luz wireless
E eu chutando
E machucando meu dedão
Nas quinas, esquinas
E cantoneiras pela casa

Pobre de mim
Eu do meu canto
Olhando e secando a lâmpada
E nem era mágica
Nem de Aladdin

Pobre de mim
A lua não colaborou
E seu lugar também se apagou
Ê saudade de brincar com vela
Derreter a cera e queimar a mão
Parecia mini lava de vulcão
Que escorria e derretia
A chama da vela era esguia
Parecia uma dama fina
Olhado pra cima
Mas quando ela finda
Fica cheiro de sem vida

A luz artificial voltou
Mas a minha é natural
E precisa continuar brilhando

Amanhã
Faça luz ou faça sol
Vai ter segunda
                                                Janeiro 2015





segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Ano à toa

Eu vi pela janela
Guerreiros saindo ainda sob o luar
Indo brigar e lutar
E trazer o pão do despojo
Ao final da tarde
Às vezes tarde da noite
Eles voltavam com o leão morto

Pela janela eu vi tudo isso
Eu coadjuvante
Vi o reflexo de meu semblante
Lembrando meu passado
Passado bem ou mal passado
Mas passado não tão distante

Os meses arrastaram os dias
E eu me agarrava às horas
Sem muitos arranhões
Cheguei ao fim
Pra tentar começar ou continuar
O velho de novo

Fiquei à toa
Tendo muito a fazer
Atordoado de mãos atadas
Fiquei fazendo contas
Afinal de contas
Contas com “C” maiúsculo
Chegam a cada minuto
A cada tributo
É cada absurdo!
O Serasa que o diga
O Serasa que nos tenha
Amém

Usei as quatro palavras do quadrado mágico
Quase um quarteto fantástico:
“Por favor, com licença
Me desculpe, obrigado”
Foram muitas desculpas solicitadas
Mas soavam e cheiravam
A desculpas esfarrapadas

Perdão mas vou ficando por aqui
Durante o ano findo
Descarreguei e aliviei a carga da caneta
Mas a minha ainda tá pesada
2015 me chega com o dedo em riste
Querendo que eu desiste
Eu só digo o seguinte
O jargão de 14 pra 15:
Sabe de nada inocente

E digo mais
Doa a quem doer
Pra quem me destoa
Tô à toa
Mas não estou de boa
                                                 Dezembro 2014


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Serei breve

Serei breve
Igual a um floco de neve
Que cai e se derrete

Serei breve
Igual a uma folha leve
Que flutua até que desaparece

Serei breve
Igual à noite que escurece
Enquanto o dia não amanhece

Serei breve
Igual à tristeza que esmorece
Enquanto o sorriso é alicerce

Serei breve
Igual a um moleque
Que brinca de dia e à noite adormece

Serei breve
Igual ao orvalho que se entristece
Quando o sol vem e nos aquece

Serei breve
Igual água no agreste
Que mal chega e desaparece

Serei breve
Igual à beleza que se envaidece
Ao passo que a pele envelhece

Serei breve
Igual a um mendigo que agradece
Pelo pão que se lhe oferece

Serei breve
Igual à ampulheta que se esvaece
Ah, a sua areia que se apresse

Serei breve
Igual a uma sequoia que cresce
Igual a uma brisa que vem do leste
Igual a um sonhador que desce do nordeste
Igual ao aroma do café que ferve
Igual à geleira que aquece

Serei breve
Diferente de tudo que se repete

Serei breve
Pois meu tempo
Não sabe se tem muito tempo
Então para não perder tempo
Enquanto ainda tenho tempo
Serei breve
Dezembro 2014