segunda-feira, 24 de março de 2014

Não contem glúten

A mamãe diz que em seu ventre,
Contém um projeto de gente.

Uma casa com bola e boneca,
Diz que ali contem criança sapeca.

O jornal da noite diz que não contém,
Nada de nada pra entreter.

Gente bonita na TV,
É certeza que contém músculos,
E minúsculos conteúdos,
Em cérebros de moluscos.

Nos estádios reformados,
Com orçamentos deformados,
Contém um povo alucinado,
E outro elitizado.

Enquanto não acaba o campeonato,
A prefeitura diz que sim,
A poeira se contém, mas grita não bem alto,
E a nossa rua continua sem conter asfalto.

Uns tantos dizem sim,
Uns fulanos dizem não,
E eu fico nesse furacão,
Procurando meu rumo e meu cão,
Contentando-me em me conter,
Em manter meus pés no chão.

Contido ou não contido?
Contém ou não contém?
Nessa sociedade insaciável,
Contenho-me em viver com todos,
E não prejudicar ninguém.

O melhor que posso fazer,
É ir ao mercado ou armazém,
E procurar se tem,
Algo que não contém glúten,
Para alguém que eu quero bem.
                                             Março 2014



terça-feira, 18 de março de 2014

Jornal da noite

Deu no jornal da noite,
Aquele que fala ‘boa noite’,
E naquele outro também,
Aquele que fala ‘tudo bem?’.
Muitas pessoas na delegacia,
Todos enrolados com a polícia,
Algemados e trancafiados,
Traficantes ou usuários,
Estupradores ou aliciantes,
Meliantes ou assaltantes.
Todos são animados e unânimes,
E se dizem inocentes e injustiçados.

O crime tenta ser justo,
Tem olhos tapados e aceita engravatados,
Pé rapados ou escolarizados.
O crime tem seu conceito,
De não ter preconceito,
Todos são bem aceitos.

Tá na moda e é atual,
Aparecer na TV e no jornal,
Mas só se roubar mais de um milhão,
Senão vai ficar na prisão.
Se usar terno,
Fica em regime semiaberto.
Pode sair e até trabalhar,
Dar uma saída e fazer trotuá,
Beber vinho e comer caviar,
Voltar pra cela individual,
E cumprir sua penosa pena.

Tem ladrão que tem vergonha,
Tapa a cara com camisa ou fronha.
Outros se sentem mártires,
Vão em cana fazendo V da vitória.
Querem ir pro livro de história.
Socam o ar com punho fechado,
Parecem o Pelé no gol mil marcado.
Peitos estufados seguem destemidos,
Detidos em seus cárceres suspeitos.

Tudo é suspeito neste berço esplêndido.
Posso até ser suspeito,
De suspeitar desses sujeitos.
É tanta sujeira que a gente suspeita.
Parecem super-heróis,
Que nenhuma jaula os detém,
E nenhum mortal os destrói.
Mas se alguma kriptonita,
Lhe der dor de barriga ou disenteria,
É só ir à uma clínica de gente grã-fina,
Fazer exame e tomografia,
Ressonância e endoscopia.
O resultado sai no mesmo dia!
E depois pleitear uma pena domiciliar,
E cumprir às ‘duras penas’,
O restante da sentença.
Que pena que dá!

Eu digo e todos repetem comigo:
Quem é honesto,
Não rouba botão nem um milhão,
E é livre pra ir e vir.
Dá pra ver daqui da sala,
Pelas grades de minha casa.
                                        Março 2014



terça-feira, 11 de março de 2014

Tomara que cai

Outra conta vai vencer,
E eu vou perder.
Eu não sei o que fazer
Não dá pra fazer de conta,
Deixar pra lá e esquecer.
No fim das contas,
A conta sobra pra mim.

Cadê meu amigo banqueiro?
Apesar de alguns negativos,
Ele sempre me levou em conta.

Tenho um nome a zelar.
Minha honra, minha reputação,
Quanta coisa pra cuidar!
Se eu descuidar,
O esforço de anos,
Entra pelo cano.

Só não dá pra falhar.
Um erro anula muitos acertos,
A cobrança vem a galope,
E muitos dedos em sua direção.
Nome e reputação,
Ficam na corda bamba,
Sem sombrinha naquele fio de linha,
Na dança da balança,
Com tomara que cai.
 A piscina ou baldinho de lama,
 Lá embaixo fica torcendo,
 Por você e pra você,
 Cair e se enlamear igual glacê.

O ventilador tá lá no quarto.
Ele recebe o pagamento,
E trabalha cheio de energia,
De noite ou de dia.
Quanta inveja do meu ventilador.
                                               Março 2014


segunda-feira, 3 de março de 2014

Acontece quando anoitece

O silêncio chegou com a noite,
E o escuro pintou o ar.
O ventilador faz não,
E espalha o calor,
Pelos quatro cantos do quarto.
É engraçado ver os pernilongos,
Voando meio tontos,
Todos sem plano de voo.

O cão do vizinho está inquieto,
E avisa que seu turno é agitado.
Ele se estressa com as entregas,
Encomendas noturnas que intriga.
O vigia apita,
E avisa pra quem precisa:
Ele está aqui e não na vila vizinha.

A minha insônia não tardou,
Chegou e se deitou.
Ela não dorme no ponto!
Meus sonhos ficaram para outra noite,
Meus pesadelos são pra hoje.

No quarto ao lado,
Meu filho espanta sono e pernilongos.
Suas armas são de cordas,
Nylon, metais e vocais:
Uma gaita e cantorias,
Um violão e muitos gritos.
Ai de meus ouvidos.
Sinto muito pelos vizinhos...
Ou vice-versos!

Lá no alto, embaixo do telhado,
A caixa d’água mata a sede,
A água sai pelo cano,
E a caixa fica toda cheia.

O rádio relógio cura sua crise,
Agora ele é só relógio.
Já estava na hora!
Seus números me olham assim,
Com olhares desse tamanho!
Ainda está tarde ou já está cedo?

Conto meus carneiros,
Mas perco a conta.
Conto, reconto,
E conto com eles,
Mas o galo canta e eles se dispersam.
Eu continuo desperto,
E me desespero.

Ouço um espetáculo vindo da avenida.
Borrachas fritando e pneus gritando,
Plásticos e metais num atrito louco.
Mais um show de mau gosto!

Meu sono deveria ser um prazer,
Mas seu atraso é meu tormento.
Se ele não vier,
Sei lá o que será de mim amanhã...
Amanhã que já é hoje!
                                           Março 2014

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Mudanças e andanças

Eu me lembro daquele dia,
Fazia calor e chovia,
E o nosso suor escorria.
Péssimo dia pra mudança,
Mas pra mudança nunca é um bom dia.
O caminhão abriu suas portas,
E recebeu mesa, cadeiras e colchões,
Também levou pedaços de corações.

Vocês tem coragem e vão e vem.
Se precisar voltam e se vão.
Buscam mudar pra melhorar,
Se piorar fazem outra mudança.
Quantas mudanças e andanças!

Eu sei por que vocês vivem se mudando:
Porque é fazendo mudanças que se vive.
Outro motivo explica tudo:
É porque está mudando a cena do mundo.

Vocês não fazem cera nem cena.
Se for necessário,
Vocês mudam e esquecem até salário.
Se necessário for,
Vocês se mudam mesmo se causar dor.

Se for preciso,
Vocês mudam de casa e de serviço.
Se preciso for,
Vocês mudam de vida por amor.

O nome de vocês é Susana e Denis.
A cena de suas vidas muda sempre,
Esse mundo mundano sempre muda,
Mas o amor de Jeová é desde sempre.
E vocês tenham sempre em mente,
O amor Dele por vocês não muda nunca.
                                                   Fevereiro 2014


Mudar é preciso...

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Café Paulistano

Café com leite e pão na chapa,
Numa padaria na Penha ou na Lapa.
Café no Largo do Café,
Pingado na Praça da Sé.
Andar a pé e tomar café Pelé no Tatuapé.
Tomar café e engraxar sapato,
Em frente à Bolsa de São Paulo.
Pra quem está atrasado,
Cafezinho no copinho de plástico.
Café no copo de pinga,
Lá longe, na periferia.
Café na xícara numa cafeteria,
Em plena Avenida Paulista,
Ou em São Miguel Paulista.

Café na caneca na Frei Caneca.
Café com leite no Viaduto do Chá.
Café amargo no Largo 13 de Maio.
Café com pão de queijo,
Tem jeito mineiro.

Café forte pra quem tá fraco,
E café fraco pra quem gosta de café ralo.
Café da manhã,
Pra esquecer o dia de ontem.
Café sem açúcar,
Pra quem bebeu demais,
E não se lembra de mais nada.
Café com liquor,
Depois do sufoco no Metrô.

Café e cerveja no Bixiga,
Combina de noite ou de dia.
Na Liberdade café com saquê,
E ouvir irashaimase* de um japonês.
Café com pastel e caldo de cana,
Na feira livre em Santana.
Café e relax sem nada pra fazer,
E apreciar o aroma do Tietê.
Café no copo e olhar pro alto,
E curtir o rush de helicópteros.

Café no copo sujo,
Pra quem vive debaixo do viaduto.
Que desrespeito,
Pra quem não tem nada,
E perdeu tudo,
Mas é digno como um cidadão do mundo.
São Paulo abre seus braços a todos,
Mas não é a todos que ela abraça.

Minha Sampa, aí vai um pedido,
De quem não tem te esquecido:
Não abandones nenhum filho teu,
Mesmo quem mora num arranha céu,
Na favela ou quem vive ao léu.
*Irashaimase (lê-se irachaimassê) – Seja bem vindo em japonês.
                                                Fevereiro 2014



Café na caneca na Frei Caneca

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Chuvas de Janeiro

Lá fora a chuva cai na rua
Seu álibi é perfeito:
Ela diz que é chuva de Janeiro
Todo mundo aceita
E o povo respeita a natureza
Ai de quem falar algum ai!
Ela tem todo o direito do mundo
De cair e varrer tudo
A gente não tem nada
Mas sempre perdemos tudo

Os governos ouvem tudo isso
Mas não fazem nada
Eles plantam mais um bueiro
O povo fica satisfeito
E espera o próximo Janeiro
Enquanto isso sambam em Fevereiro

As gotas caem e se dividem
Igual cabelo de mulher
Gotas escorrem pra lá e pra cá
E descem pelo meio fio
Iguais fios de cabelo comprido
Se ondulam e cintilam
E brilham na madrugada

As luzes amarelas
Da São Paulo já velha
Iluminam o ar esfumaçado
Mas a chuva segue seu traçado
E desce ladeira abaixo
Igual cabelo limpo e molhado
Com cheiro de xampu importado
E gotas todas juntas
Descem a rua fazendo charme
E vão pela noite adentro
Até cair lá dentro
E se desmancham na boca do bueiro

Lá dentro naquele mundo
Não se vê nada
E não se ouve mais nada
E acontece de tudo
Naquele lugar escuro e obscuro

Use a sua imagem e ação
E diga pra mim
Sobre tudo isso
E o que acontece no fim
                                            Fevereiro 2014